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FECHA O HOSPITAL PSIQUIÁTRICO OU NÃO FECHA: EIS A QUESTÃO!

  • 1 de jan. de 2017
  • 6 min de leitura

Esta época em que um ano termina e outro começa no qual as esperanças são renovadas, as pessoas ficam mais sensíveis e reflexivas é o momento ideal para que seja feito um balanço de nossa vida, de nossos conceitos e de nossos preconceitos.

Sou enfermeiro desde dezembro de 1972! Formei-me muito jovem, é claro! Trabalhei com psiquiatria em hospitais psiquiátricos tanto de pequeno ou médio porte como de grande porte.

Fiz especialização em Enfermagem Psiquiátrica na UFRGS que tinha como campo de estágio o Hospital São Pedro numa unidade modelo, onde só internavam pacientes do bairro Parthenon para que pudessem ser trabalhados os familiares dos mesmos com um referencial de comunidade terapêutica.

A parte comunitária era feita na Unidade Básica São José do Murialdo, onde atendíamos pessoas egressas do Hospital São Pedro moradores daquele bairro. Além do atendimento individual e em grupo fazia parte da rotina da instituição a visita domiciliar realizada por todos os técnicos e estagiários um dia por semana. Esta unidade básica adotava o sistema de prontuário de família. Isto tudo que estou falando foi no ano de 1974.

Ao iniciar a atividade profissional, em fevereiro de 1973, tive o prazer e a honra de ter como mentor, preceptor, mestre e amigo o enfermeiro Wilson Kraemer de Paula, um dos maiores pensadores da enfermagem psiquiátrica e discípulo da grande mestra Maria Aparecida Minzoni da USP de Ribeirão Preto.

Com ele aprendi a valorizar o cuidado humanizado, reforçar o que já havia em mim sobre o respeito e a tolerância ao outro, a ser empático e resiliente que depois procurei aprimorar e refletir durante toda minha vida profissional tanto como os pacientes como com os alunos quando me tornei professor. Isto tudo passou a fazer parte do meu EU Profissional e do meu EU pessoal, ou seja, da minha essência.

Todo este preâmbulo é para mostrar porque foi cristalizado em mim a visão da importância do hospital psiquiátrico para o paciente com problemas mentais, pois em um hospital com mais de 1000 pacientes como era a Colônia Santana, em Florianópolis, pudemos realizar um trabalho humanizado com a valorização da pessoa da doença e não da doença da pessoa.

Durante as décadas de 1980 e 1990 houve um avanço significativo da psicofarmacologia o que facilitou a abordagem ao doente mental e a sua manutenção na comunidade, em sua casa, junto aos seus amigos e familiares. E, isto, com certeza, se bem executado nos ambientes terapêuticos e sociais vai melhorar o atendimento e, a tendência ao sucesso do tratamento será muito maior, pois a medicação junto as novas tecnologias de cuidado que surgiram também neste período como, por exemplo, os NAPS e posteriormente os CAPS promovem a permanência desta pessoa na sociedade.

O hospital psiquiátrico da forma como está concebido hoje, tem perdido muito sua função social. Em muitos a enfermagem voltou a exercer a função de carcereiro, o qual cuida para evitar brigas, distribui medicação, manda tomar banho e evita que homens e mulheres possam conversar.

Este hospital, na minha opinião, tem que fechar, ele não tem mais lugar na sociedade!

Penso que muitas dessas pessoas que hoje exercem o papel de carcereiro, um dia já foram idealistas, mas por uma tendência natural do ser humano entraram em uma zona de conforto, se acomodaram. Falha a instituição que que não estimula a educação continuada, falham os gestores de saúde que não favorecem e oferecem cursos de atualização para os profissionais envolvidos com a assistência da pessoa com doença mental, falham os profissionais que não buscam sua atualização e se acomodam.

Enquanto isso, os pacientes ficam as 24hs do dia com o mínimo de atividades terapêuticas. Ficam “jogados” em seu mundo com pouca ação para trazê-los a realidade e a sua ressocialização.

Em muitos desses hospitais existe hoje muitas pessoas cronificadas, outras com muitos anos de internação que teriam dificuldades de conviver com as mudanças sociais que houveram desde suas internações. Mas, com certeza, o hospital psiquiátrico não é o seu lugar. Surge a necessidade de lares protegidos, por exemplo, os Residenciais Terapêuticos, com cuidadores treinados e capacitados a prestarem uma assistência humanizada a estas pessoas. Trabalhar sempre para que eles alcancem sua autonomia e a independência institucional e, então, gerenciarem suas próprias vidas.

Os Centros de Atenção Psicossociais (CAPS) precisam ser melhor estruturados e preparados para atenderem uma emergência psiquiátrica, principalmente nos casos de agitação psicomotora. Tem que ter equipe completa e medicações próprias para emergência. A maioria não tem esses recursos e a emergência pode ocorrer a qualquer momento.

Outro cuidado importante do CAPS é o de estar atento para não institucionalizar seu assistido e para isso é necessário que a UBS esteja preparada e disposta a atender as pessoas oriundas dos CAPS quando necessário e quando essas pessoas derem alta deste serviço, uma vez que quando a pessoa estiver estabilizada e reinserida na sociedade esse paciente deve manter atendimento na UBS e quando necessário retornar ao CAPS, pois o paciente não pode ser mantido pra sempre no CAPS para que não correr o risco de institucionalização e cronificação que são características manicomiais.

Em minha reflexão cheguei ao paciente agitado ou mesmo nos casos de emergência no qual pode ocorrer estar em risco a integridade da pessoa ou de terceiros. O que fazer? Muitos irão me responder que tem o CAPS III, mas esse CAPS mantém o paciente em observação por um período curto e não há internação, porém numa emergência pode ser necessário um atendimento por um período maior.

Mesmo assim, aquele hospital custodial não precisa existir e não me refiro ao IPF, falo daquele em que a enfermagem exerce o papel de carcereiro e de distribuidor de medicação sem saberem seus efeitos e principalmente seus paraefeitos e cuidados necessários.

Volto a colocar minha opinião, estas instituições têm que acabarem, elas não são necessárias. Necessárias são aquelas que prestam um cuidado humanizado com respeito, tolerância e empatia com os assistidos.

Mas retomando a questão eu acredito que os quadros agudos e as emergências devam ser assistidos em instituições de saúde com cuidado humanizado e junto aos hospitais clínicos como parte destes, sendo uma unidade ou um anexo até acabarem os preconceitos e as pessoas poderem internar em qualquer unidade.

A importância de ser junto a uma instituição clinica deve-se a dois fatores:

- Primeiro, poderá diminuir o preconceito com o paciente psiquiátrico que necessita de atendimentos clínicos e de internação. Hoje o preconceito ainda é muito forte! O paciente psiquiátrico ao internar em um hospital clinico aproxima essa pessoa com as demais pessoas internadas com problemas clínicos podendo promover a desmistificação acerca das patologias psíquicas.

- Segundo que, com o avanço das tecnologias de saúde e dos exames complementares, estes estarão mais facilmente disponíveis, assim como os profissionais de saúde das diversas áreas, aos pacientes psiquiátricos.

Mas para isso é de fundamental importância a desconstrução dos manicômios internos e dos preconceitos em relação ao paciente psiquiátrico. Para exemplificar, recentemente fui a um hospital clinico de Porto Alegre, totalmente SUS e que tem uma unidade de dependentes químicos. Ao entrar em vez de ir para o andar superior comecei a descer uma escada quando veio um funcionário e disse que eu estava indo para o inferno, ou seja, para a ala psiquiátrica do hospital. Puro preconceito e visão distorcida das pessoas doentes.

No fechamento do hospital psiquiátrico tem que se ter o cuidado de não criar “manicômios” em outros espaços e disseminar “mini hospícios” por vários locais. Tem que ser repensado o fazer e o agir dentro dessas instituições.

O hospital psiquiátrico só se sustenta através de uma mudança de atitude tanto na assistência quanto nas suas relações de poder. O autoritarismo e a submissão não fazem parte do novo modelo social no qual o paciente deverá ser inserido através da ressocialização.

Se todos os profissionais da saúde estiverem mais preocupados com a pessoa doente do que com a doença da pessoa a assistência terá uma maior qualidade, pois ela estará fundamentada na empatia e no respeito, e isso, humaniza as relações e otimiza o tratamento.

Mudei minha opinião com relação ao fechamento dos hospitais psiquiátricos, mas o que jamais eu vou mudar é a minha luta por uma assistência mais humanizada com respeito, com tolerância ao outro e, principalmente, com empatia porque isso faz parte da minha essência. Não mudo e não quero mudar.

Uma boa reflexão a todos!!!!

P.S. QUE 2017 SEJA UM ANO MAIS FELIZ, PRÓSPERO E COM SAÚDE A TODOS E SUAS FAMILIAS!!!!



 
 
 

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